sábado, 28 de fevereiro de 2015

Virei um caçador do vírus HIV', diz praticante de roleta-russa do sexo

"Fui fazer o exame para detectar o HIV. Quando eu recebi o resultado, a psicóloga foi falar comigo de um jeito gentil e delicado. Eu disse: 'Tudo bem, moça, ainda bem, até que enfim, depois de tantos anos. Agora eu tenho a certeza. Agora eu estou livre'." É dessa maneira que o paulistano J.D., 35, explica à são paulo como recebeu a notícia de que tinha contraído o vírus HIV. Ele escolheu ter a doença.


O caixa de supermercado, que pede que seja identificado apenas pelo apelido SóBare, faz parte de um grupo que preocupa o Ministério da Saúde, o dos que contraem o vírus HIV por opção.
No final de 2014, o ministério criou uma comissão para discutir a vulnerabilidade dos homossexuais e, também, os casos de infectados por escolha. Os profissionais vão analisar as implicações dessa prática e o quanto ela está disseminada no Brasil. Em nota, o ministério afirma que "é contra a prática do 'barebacking' (...). Não cabe ao ministério punir ou julgar civilmente quem pratica ou coopta pessoas para a disseminação da prática".


O apelido SóBare vem da expressão em inglês "bareback", usada para a prática do sexo sem camisinha. Ele diz que desde que contraiu o vírus, há três anos, só mantém relações sem a "capa", como chama os preservativos.
A prática "bare" é antiga. É conhecida desde a década de 1980, com mais casos nos Estados Unidos. No Brasil, a maior parte dos participantes é do sexo masculino, homossexuais, que tem o interesse em fazer sexo grupal. Alguns deles estão em grupos apenas pelo risco: têm relações com várias pessoas e são informados que algum deles é portador do vírus, mas não sabem exatamente quem, por isso a prática também é conhecida como roleta-russa do sexo.


Em São Paulo, SóBare conta que já organizou duas festas para a disseminação do vírus em casa. "O largo do Arouche é o ponto de encontro para quem quer se infectar." Segundo ele, alguns dos participantes tatuam o símbolo de perigo biológico. Uma forma de serem reconhecidos entre os pares.
Símbolo do perigo biológico, tatuado por alguns participantes

Reprodução
Símbolo do perigo biológico, tatuado por alguns participantes 
SóBare afirma que tomou a decisão de contrair o vírus para garantir liberdade sexual e é assim com todos os conhecidos que participam das festas do HIV. Antes das relações, SóBare avisa que é portador e diz que não faz sexo com proteção. "Se negocio com 20 pessoas, apenas cinco aceitam", conta.
"Quando tomei a decisão, me tornei um caçador do vírus. Tem pessoas que passam dez anos tentando [contrair o vírus]. Eu fiquei aproximadamente cinco anos. Era um desejo. Eu odeio ter qualquer tipo de dúvida, eu gosto de ter a certeza em tudo na minha vida. Queria chegar para o meu parceiro e poder dizer com certeza: eu tenho o vírus."

De acordo com SóBare, os "negativos" -jovens que ainda não contraíram o vírus- que decidem ser portadores podem entrar em contato com os "positivos" e se encontrar para sexo sem camisinha. Esses rituais são chamados de "batismo" ou "conversão", geralmente marcados por sites camuflados na internet. Ele já teve um perfil no Facebook para conseguir organizar as festas, mas foi bloqueado após uma denúncia feita para a rede social.

"Eu fiz a minha conversão em uma noite. Marquei em um motel e encontrei outros homens, convidei muita gente mesmo, umas cem pessoas portadoras, para conseguir finalmente contrair o vírus."
A cada seis meses, enquanto praticava o sexo sem camisinha com diferentes homens infectados, SóBare ia ao médico para checar se tinha conseguido ficar "positivo".



Texto extraído da Folha de São Paulo

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